
Estava em viagem há 25 dias, tinha acabado de sair de Singapura, em que ordem e a limpeza eram norma e onde me conseguia ouvir a respirar e, às vezes, até a pensar. Algumas horas depois, aterrei em Chennai, na Índia. Tinham-me avisado e eu tinha lido sobre a Índia, ainda assim não há aviso ou leitura que nos prepare para aquele enorme choque de realidade. Caos, muito barulho, toneladas de lixo e uma multidão imensa, quase infinita de gente. Nada está bem sinalizado, as explicações são dadas pela metade, as buzinas estão sempre presentes e o lixo amontoa-se em cada canto como se esse fosse o seu lugar natural. Apanhar um táxi foi uma aventura, o percurso de 15km do aeroporto para o hotel demorou 55 minutos por estradas apinhadas de carros e motas a fazerem um concurso de tangentes por entre buzinadelas constantes e interruptas. Ainda para mais, o Sul da Índia é pobre e não é uma zona turística, portanto eu era o único caucasiano num raio de muitos quilómetros. Eu era a dioferença e o centro de todas as atenções, o que não é fácil para quem habitualmente gosta de passar entre os pingos da chuva. Fiquei em choque. No meu pensamento só queria voltar para o conforto de Singapura. Depois de chegar ao hotel, só consegui, num pé, ir a mercearia da frente comprar fruta para o jantar e, no outro, voltar rapidamente para curtir a depressão. Esta foi a única fotografia que tirei, da janela do meu quarto de hotel, no meu primeiro dia em Chennai e acho que traduz bem o meu estado de espírito naquelas minhas primeiras horas de Índia.
A verdade é que estava a precisar de uma boa noite de sono, mudar o chip e adaptar-me. Não há dois países iguais e é possível encontrar beleza no meio do caos. No dia seguinte tudo foi diferente, para melhor.
[ENG]
Postcards from India: First Print – Shock
I had been traveling for 25 days and had just left Singapore, where order and cleanliness were the norm and I could hear myself breathe and sometimes even think. A few hours later, I landed in Chennai, India. I had been warned and had read about India, yet no warning or reading could prepare me for that enormous culture shock. Chaos, a lot of noise, tons of garbage, and an immense, almost infinite crowd of people. Nothing was well-signposted, explanations were given halfway, horns were always present, and garbage piled up in every corner as if that were its natural place. Taking a taxi was an adventure, the 15km journey from the airport to the hotel took 55 minutes on roads packed with cars and motorcycles competing in a slalom between constant and uninterrupted honking. Moreover, South India is poor and not a tourist area, so I was the only Caucasian for miles around. I was the difference and the center of everyone’s attention, which is not easy for someone who usually likes to go unnoticed. I was shocked. In my mind, all I wanted was to go back to the comfort of Singapore. After arriving at the hotel, I could only manage to go to the grocery store in front to buy fruit for dinner and then quickly return to wallow in depression. This was the only photo I took, from the window of my hotel room, on my first day in Chennai, and I think it sums up my state of mind during those first few hours in India.
The truth is that I needed a good night’s sleep, to change my mindset and adapt. No two countries are the same, and it’s possible to find beauty in the midst of chaos. The next day, everything was different, for the better.

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