A minha interação com o Amir não teve um início feliz. Manhã cedo em Essaouira e este proprietário abria a sua loja de roupa com o olhar escondido atrás dos óculos escuros e expressão taciturna de quem não estaria grandes conversas. Uma das t-shirts em exposição prendeu a minha atenção e inquiri o seu valor: “150 Dirhams”. Como ‘mandam os livros’ e porque gostei mesmo da t-shirt, regateei e ofereci 100. Resposta pronta e seca “não negociável”, seguido de ralhete em surdina “Turistas, sempre a mesma coisa. Estou farto! Pensam que é chegar oferecer um valor baixo e esperar que nós façamos desconto só porque sim. Compram por impulso. Pensam que podem comprar tudo ao desbarato. Não conversam, não respeitam e não dão nada em troca do desconto que pedem. Só quero que o verão acabe. Estou farto!” E terminou, sublinhando: “150 Dirahms, se quiseres”. Estava há quatro dias em Marrocos e ainda não tinha comprado nada a não ser comida – não fui para compras mas sim conhecer. Além disso, compreendi o desabafo, quero pelo que vou vendo em Portugal, quer pelos dois dias em Marraquexe onde reforcei a ideia de como o turismo massificado pode desvirtuar os costumes. De forma calma e coerente, transmiti-lhe os meus pensamentos conforme me ocorriam. De repente algo mudou: os óculos escuros subiram para o boné e da cara fechada saiu um primeiro sorriso. Acabara de dar algo meu e de quebrar o gelo, logo ali começámos uma animada e agradável conversa que foi do significado da t-shirt que eu queria, passou pelo Bob Marley, pelo Ghandi e pelo Mandela e terminou na música – reggae e gnawa. No final tive mesmo direito ao desconto (130 Dirhams), a uma selfie e a um caloroso abraço. Shukran, Amir.


[ENG]

Postcards from Morocco: Essaouira (1)

My interaction with Amir didn’t get off to a happy start. It was an early morning in Essaouira and the owner was opening his clothes store with his gaze hidden behind his sunglasses and the taciturn expression of someone who doesn’t want to talk much. One of the t-shirts on display caught my eye and I asked how much it cost: “150 Dirhams”. As ‘the books say’ and because I really liked the shirt, I haggled and offered 100. A prompt and dry reply of “not negotiable”, followed by a muttered “Tourists, always the same thing. I’ve had enough! They think it’s enough to offer a low price and expect us to give them a discount just because. They buy on impulse. They think they can buy everything on the cheap. They don’t talk, they don’t respect and they don’t give anything in return for the discount they ask for. I just want summer to end. I’ve had enough!” And he finished: “150 Dirahms, if you want”. I’d been in Morocco for four days and hadn’t bought anything except food – I didn’t go to shop, I went to see. Besides, I understood the outburst, both because of what I see in Portugal and because of the two days in Marrakech where I reinforced the idea of how mass tourism can distort customs. I calmly and coherently conveyed all these thoughts as they occurred to me. Suddenly something changed: his sunglasses went up to his cap and a smile emerged from his closed face. I had just given him something of mine and to break the ice, we started a lively and pleasant conversation that ranged from the meaning of the t-shirt I wanted to Bob Marley, Ghandi and Mandela and ended with music – reggae and gnawa. At the end I was even entitled to a discount (130 Dirhams), a selfie and a warm hug. Shukran, Amir.


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